
Desde os 22 anos, Branco tinha o projeto de fazer uma ópera-rock infantil e contar a história de Eugênio, um menino imaginativo, que tem como melhor amigo um guarda-chuva herdado do avô. Naquela época, 1985, a banda ainda engatinhava. As letras, foram feitas em parceria com Ciro Pessoa, "Nós brincávamos de fazer personagens, eram umas músicas malucas, com temas lisérgicos. Passávamos noites e noites escrevendo e rindo! “Senti que as músicas me acompanhavam e comecei a formatar a idéia de uma ópera rock infantil.Tinha muitas idéias. Só que não havia nem tempo nem disciplina”, conta Branco Mello.
Vamos ao trabalho
As músicas faziam parte do repertório de Branco Mello nas horas de lazer. Em uma das férias dos Titãs, o músico encontrou uma oportunidade para começar a dar forma ao projeto. Junto com sua mulher, a atriz Ângela Figueiredo, Branco começou a conquistar aliados, que contribuíram com idéias e força de trabalho. A atriz Andréa Beltrão, por exemplo, participou do coro de Museu Ideológico, que foi gravada com alunos da escola de música da Rocinha.
Foi então que entrou em cena Hugo Possolo, do grupo de teatro Parlapatões, Patifes e Paspalhões, responsável pelo texto da peça e do livro. Por causa da dificuldade em montar o espetáculo, o CD acabou saindo primeiro. “Achei que ia dispersar muito lançar somente o disco. Então pedi para o Hugo escrever o livro para contar a história da peça”, explica Branco Mello.
Com o argumento e personagens, Branco também cedeu as músicas para que Hugo trabalhasse o texto. O diretor do grupo teatral apresentou primeiramente a ópera-rock. "Mas a gente reparou que a peça seria um projeto mais demorado, até arranjar o dinheiro...", explica Branco. O Titã partiu então para a concretização do livro e do CD,e a renda seria usada para custear a opera-rock. Andréa Beltrão, Maurício Farias, Vicente Barcellos, Kassin e Berna Ceppas foram alguns das dezenas de amigos envolvidos no projeto: "Desde o início, tudo foi feito em grupo, em harmonia. Todos davam suas opiniões, traziam suas idéias".
Eu e meu Guarda-Chuva - O CD
O CD foi a primeira etapa vencida, com a definição de quais músicas deveriam integrar esta trilha sonora.Das
14 músicas iniciais apresentadas por Branco, Hugo Possolo acabou amarrando dez na história de Eugênio e seu guarda-chuva. "Na minha cabeça, eu já tinha todas as músicas encaminhadas para cada um. E quando convidei, todos toparam na hora, sem nem conhecer as outras composições", A escolha dos intérpretes foi de Branco Mello. Ele fez os convites e ninguém sequer pensou em recusar. Assim, "Prisioneiro", a primeira faixa, ganha liberdade no vôo de Falcão, vocalista do grupo O Rappa. O clima sinistro de "O Mistério de Jonas" é resultado da mistura das vozes de Arnaldo Antunes e do cantor lírico Marcelo Coutinho. A minimalista "Buraco do Metrô" traz Marcelo D2, tendo como base a programação de Berna Ceppas e Kassin.
Para dois personagens impossíveis, um dueto impressionante. Em "Hércules e seu amigo Astérix", Elza Soares e Toni Garrido dão o tom louisarmstronguiano, bem ao sabor da compilação com os sucessos da Disney interpretados pelo trompetista em "Disney songs - The Satchmo way". "Eu sabia, por exemplo, que Elza ia arrebentar cantando Hércules.... Ela é minha amiga, eu já falava há anos que tinha essa música pra ela gravar. E com a idéia de um duo, veio o Toni, que estava louco para gravar com ela". Moreno, parceiro de Kassin, também fez questão de participar do disco e emprestou sua voz ao galo da música "Museu Ideológico", cantada pelo Coro Infantil da Escola de Música da Rocinha, reforçado pelo filho e sobrinhos de Branco e Angela, Bento, Gabriel e Mariana, respectivamente; e por Andréa Beltrão e os filhos Francisco e Rosa; além de Gabriel Bubu. "Sempre imaginei Museu com um clima de excursão de colégio. E queria também um grupo ligado a algum trabalho social. Pensamos em uns meninos do Morumbi, mas não conseguimos verbas. Aí a Ângela conheceu o diretor da Escola de Música da Rocinha e então conseguimos gravar com as 11 crianças", relata.
Cássia Eller é a Sua Majestade em "Eu sou um Rei", enquanto Frejat é "O Tenente" que comanda o 'marcha soldado' de Penélope e o 'tambor' de Domênico Lancelotti. A faixa-título coube honrosamente a Branco, que contou com a 'pegada' de João Barone na bateria. Para recompor "Dona Nenê", encontramos Rodolfo pilotando o carrinho de supermercado no maior pique na faixa mais pesada do álbum. Branco Mello volta para encerrar o CD com "Lance de cabelo", cercado de metais paralâmicos, representando à altura Herbert Vianna. Branco lamenta a ausência de Herbert: "Ele era um dos grandes incentivadores do projeto, mas aí aconteceu o acidente e ele não pôde gravar". .
Para realizar o CD, Branco Mello, Kassin e Berna Ceppas contaram com a camaradagem destes e outros inúmeros amigos que emprestaram estúdios, equipamentos, instrumentos e/ou entraram no projeto com sua 'força de trabalho'. As músicas foram gravadas nos estúdios Monoaural, de Kassin e Berna Ceppas, e no Nas Nuvens, de Liminha, ambos no Rio de Janeiro. O CD é independente, produzido pela Casa 5 (produtora de Branco, Angela e Diana Bouth), tendo sido licenciado para a Editora Globo para ser encartado no livro. Todos os artistas doaram seus cachês para a Sociedade Viva Cazuza. Esta foi a forma que o grupo encontrou para alcançar um dos objetivos do projeto: dar apoio a iniciativas de cunho social. "Os direitos seriam divididos, o que daria pouco para cada um. Não é um projeto que visa lucro, trabalho em rádios e que vá vender milhões... Então, todos acharam fantástico juntar tudo e doar para a instituição", conta. Angela Figueiredo, produtora executiva, destaca ainda que: "Nada mais adequado a um projeto infantil embalado por muito rock'n'roll do que apoiar uma instituição que leva o nome de um de seus maiores ícones."
Branco finaliza que Eu e Meu Guarda- chuva foi feito em total harmonia, pois todos sabiam que estavam realizando um bom projeto. "Há uma carência de coisas boas para as crianças. Não que este projeto seja melhor que outros, mas pelo menos oferece uma outra opção. E, se há oportunidade para escolher entre coisas diferentes, passa-se a questionar se aquilo é mesmo bom ou não".
Eu e meu Guarda-chuva - O LIVRO:
Eu e Meu Guarda-chuva, mistura sonho e realidade, ambivalência bastante comum em crianças na idade do personagem Eugênio. "A idade de dez anos é uma época mágica, fascinante. Aqui não há nada de super-heróis, e sim a insegurança de se estar próximo a adolescência, e preso ainda a todo um mundo ingênuo à sua volta", resume Branco. O que podem ter em comum uma mansão, um buraco do metrô, um tenente, um barbeiro e um guarda-chuva? A origem do livro "Eu e meu guarda-chuva" está exatamente nesta pergunta. Hugo Possolo tomou como base o argumento de Branco Mello e as músicas que já estavam compostas para escrever as aventuras de Eugênio. No desenrolar da história, as funções de Branco, Hugo e Rico Lins (responsável pelas ilustrações e pelo projeto gráfico) formam uma rede muito bem tecida.
Eugênio é um menino como outro qualquer, que demora a atender os pedidos dos pais e, vez por outra, mesmo sem a maldade a ela atribuída, conta uma pequena mentira para livrar-se de alguma situação incômoda. Como todo menino, é também um sonhador, que fez do guarda-chuva herdado de seu avô seu fiel escudeiro em suas aventuras no escurinho do quarto. A bordo de sua cama-aeronave, Eu ou melhor, Eugênio e seu guarda-chuva partiram em busca do abajur Jonas, ao lado do relógio Claque-creque, do livro Amansão e do travesseiro Tuf, entre outros personagens.
O encontro com o Tenente Bat Palmas é revelador para Eugênio, que acaba percebendo sua capacidade para imaginar e 'desimaginar' as coisas. Assim, quando o sonho o levava por caminhos indesejáveis; puft, num passe de mágica, tudo desaparecia de sua mente. Esta foi a maneira que encontrou para deixar de ser "prisioneiro da Terra" e ter coragem para revelar seu amor juvenil.
O livro é recomendado para crianças com mais de quatro anos, mas Branco discorda: "Eu não limitaria a idade. Afinal, cada criança absorve de sua prórpia forma. Vejo pelo meus filhos: Joaquim, que tem 2 anos, ouve o CD, dança e reconhece os personagens. E Bento, de 10, já tem uma relação mais profunda com o aspecto literário do trabalho", garante. E completa: "Todos os meus amigos gostaram! E a maioria tem mais de 40...", brinca.
Eu e Meu Guarda-Chuva é literatura infantil bem escrita que alcança o universo infantil sem subestimá-lo. Ao passear pelas páginas, é impossível não se apaixonar por Eugênio ou discordar das ponderações de seu maior companheiro. “É uma espécie de alter-ego, a consciência dele”, conta o titã. E a história do menino teve a aprovação de Bento, filho de Branco. “Eugênio é uma criança normal como Bento, com preocupações e encantamentos”, compara.
Estreante no meio infantil, o titã pretende explorar todas as possibilidades do projeto. Além da peça, Branco também quer transformar a história em filme. “É um universo muito rico”, afirma. Apesar disso, os Titãs continuam sendo a prioridade do músico. “Não sei o que vai acontecer com o projeto. Mas isso não significa que esteja entrando para um novo ramo. Quero continuar fazendo boas músicas”.
Letras
das músicas
Lilian